A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. (Colasanti, M)
“- Sinto a sua falta.
- Também sinto a minha falta.
- Não sente mais a minha?
- Cansei de sentir.
- Deixou de sentir?
- O verbo “cansar” é diferente de “deixar”.
- Ah, então quer dizer que você ainda sente a minha falta?
- Da mesma maneira que sinto a minha falta.
- E porque sente a sua falta?
- Porque eu mudei.
- Mudou por sentir a minha falta?
- Não, mudei por você ter ido embora mesmo.
“Mas a verdade é que a gente funciona como uma espécie de celular. Tem horas que a gente está perdido pelos lugares, tem horas que a gente é jogado no chão sem perceber. Tem horas que a bateria está cheia e as forças todas recompostas, e tem horas em que a bateria está apitando, implorando por uma recarga. Chega um tempo em que a gente perde a graça, que as pessoas enjoam e fazem a gente sair de moda na vida delas. E no meio dessa difícil vida de eletrônico, chega aqueles dias em que tudo que a gente mais quer é ficar desligado, sem receber ligações, mensagens ou ter que ouvir o despertador apitar.